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Entrevista com Diretor Executivo do BTG Pactual - Iuri Rapoport

Entrevista com Diretor Executivo do BTG Pactual - Iuri Rapoport
  • 15/05/2018 /
  • Blog Econômico

Insper Jr: Você é formado em direito e iniciou sua trajetória trabalhando como advogado. Poderia nos contar um pouco de sua trajetória profissional? O que despertou seu interesse para o mercado financeiro?

Eu estudei no colégio Santa Cruz, em São Paulo, e sempre tive interesse pelas carreiras jurídicas, o que me levou a estudar direito na USP. Antes de me formar, trabalhei em escritórios de advocacia, como Pinheiro Neto Advogados e Gouveia Vieira. Naquela época, entretanto, acreditava que a formação em direito era, no geral, muito conservadora e burocrática, e sentia que o meu trabalho como advogado muitas vezes se limitava a cumprir com procedimentos predeterminados. Isso despertou meu interesse para outras áreas, em especial para o mercado financeiro, pois apesar de muito regulados, os bancos, acima de tudo, eram ambientes de negócio, onde era necessário ser pragmático e sair do automático.

Então, em 1993, eu comecei a estudar contabilidade por conta, até que decidi me aventurar no banco Pactual, que na época deveria ter cerca de 60 funcionários em São Paulo. Na entrevista do processo seletivo, o que me chamou muito a atenção foi o ambiente de informalidade, muito diferente do que eu estava acostumado. Os recrutadores do banco preocupavam-se sempre com minha capacidade de entrega de resultados e deixavam em segundo plano questões de histórico e origem social, o que me agradou muito. Não tive grande apoio da minha família nessa transição, pelo desconhecimento do que era um banco de investimento e também, porque eu passaria a ganhar um salário inferior.

Logo quando entrei no banco, aprendi que o bom advogado naquele ambiente deveria buscar viabilizar o negócio, e não simplesmente vetar. O meu maior desafio era trabalhar de forma construtiva e colaborativa, entendendo e compatibilizando a necessidades do banco e do cliente. Além disso, para tomar decisões adequadas, era necessário grande aprendizado nas áreas de finanças, tributação e questões contábeis, com as quais não tinha tido até então muito contato na minha formação.

Nesse período, o Brasil encontrava-se no final de um longo período de instabilidade política e econômica, com o fim do ambiente hiperinflacionário. O país estava experimentando justamente o boom de mercado de capitais, com grande crescimento de liberação de títulos de dívida por grandes companhias, de IPOs e de fusões e aquisições, entre outras estruturas mais sofisticadas. Eu vislumbrei - nesse ambiente de imersão do país nos mercados financeiros internacionais - uma oportunidade, pois muitas instituições financeiras necessitavam de profissionais que entendessem das mecânicas legais de transações financeiras internacionais. Isso me motivou a procurar um mestrado que me capacitasse nesse mercado. Então, eu comecei a dar aulas de francês após o expediente, como uma ajuda para guardar dinheiro e, em um ano e meio, fui fazer um mestrado em Direito Financeiro Internacional no King's College, em Londres.

Quando voltei para o Brasil o banco estava surfando essa onda de internacionalização do mercado financeiro, o que contribuiu muito para o  crescimento do próprio banco. A minha ascensão dentro do Pactual foi  rápida. Em 1998, eu assumi o departamento jurídico internacional e, em 1999, assumi junto com uma outra advogada o Departamento Jurídico do Banco, me tornando Diretor jurídico do Banco em 2002. Em 2003 tornei-me sócio do banco. Atualmente, eu faço parte da diretoria estatutária do banco, e sou membro de um de seu comitê executivo. 

Eu sou Diretor responsável por parte dos temas administrativos do banco, como áreas de Serviços Corporativos/CAS, Infra-Estrutura/Critical Facilities, Compras e Contratos e Risco SocioAmbiental/ESG, tanto nos escritórios do Brasil, em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte e Recife, quanto nos escritórios no Exterior, em Nova Iorque, Londres, Santiago e Lima, além de outras localidades. A área de Compras e Contratos, por exemplo, faz a gestão de mais de 8000 contratos ativos. Uma parte interessante desta área também se concentra na cotações e negociações. Nas áreas acima mencionadas temos, só no Brasil, cerca de 200 funcionários. A área de Risco Ambiental é algo hoje muito valorizada no Banco, não só por ser área obrigatória pela atual legislação do Banco Central, como pelo reconhecimento do tema pelo banco como algo vital para um desenvolvimento sustentável do mercado como um todo. 

 

Insper Jr: Você trabalha no BTG Pactual há mais de 20 anos e tem uma história de grande crescimento dentro do banco. Pode nos contar um pouco mais sobre como funciona o banco?

O BTG Pactual divide-se em três grandes áreas, sendo que a maior delas é a área de Investment Banking. Nesta divisão temo as chamadas Corporate desks, responsáveis pela relação entre o banco e as grandes empresas. Esta divisão oferece uma série de serviços de advisory a empresas, como fusões e aquisições, IPOs e oferta de papéis. Nessa área, também contamos com uma grande mesa de trading proprietário, onde se negociam energia, juros e câmbio. Eu poderia dizer que negociamos no trading floor todo tipo ativo, é uma área muito diversificada. O banco atua também na área de commodities, por meio de sua empresa chamada ECTP, que tem escritórios em diversos locais do Brasil e do mundo. Por exemplo, em um dos nossos escritórios em Genebra, contamos com cerca de 40 pessoas focadas em trading de espaço em navios de carga, conforme a necessidade de clientes que são grandes empresas de logística.

A segunda área é a de Asset Management, composta por uma grande família de fundos de investimento, os quais são muito diversos. Atualmente, o BTG Pactual é o quinto maior banco do Brasil em termos de volume de recursos de terceiros, com mais de 200 bilhões de reais sob gestão no total. A terceira grande área é o Private Banking, onde se administra o capital de grandes investidores e se investe em produtos estruturados, com aplicação mínima de R$ 1 milhão. Esse é um trabalho extremamente pujante e, hoje em dia, conta com mais de 100 bilhões de reais sobre administração.

Uma área mais recente do banco, e que eu acredito ter grande potencial de desenvolvimento, é o BTG digital. Voltado a clientes com menor volume de capital a ser investido, oferece serviços de modo 100% digital, desde o cadastro do cliente, sendo desnecessário ir a qualquer agência bancária. É uma das áreas do banco que mais cresce atualmente.

 

Insper Jr: poderia nos contar um pouco sobre como funciona a carreira no BTG e como é a cultura geral do banco?

Normalmente, a entrada no banco ocorre nos níveis de estagiário ou analista, sendo mais incomum a entrada em cargos mais avançados. A carreira aqui no BTG é muito bem estruturada, de forma que o indivíduo produtivo e relevante para a empresa sempre tem espaço para crescer e se desenvolver, inclusive quando se torna Managing Partner, o patamar mais alto do banco. Primeiramente, gostaria de ressaltar que no BTG temos uma relação horizontal entre os indivíduos de diferentes cargos. Por exemplo, não temos salas específicas para nenhum cargo, o que permite maior contato entre os setores do banco. Além disso, há um respeito sepulcral ao jovem, e desde de cedo os funcionários têm muito espaço para expor suas opiniões e desenvolver seu trabalho, com grande incentivo ao empreendedorismo. Procuramos sempre ter um ambiente democrático e propício a inovações, afinal somos uma empresa de pessoas e é de nosso interesse valorizar e desenvolver os funcionários, nosso bem mais importante.

No BTG, os funcionários não ganham altos salários fixos, sendo a forma de avaliação e remuneração ligada ao conceito de meritocracia. Se o funcionário tem uma boa performance, vai receber um bom bônus ao final do ano, sendo que o mesmo ocorre no sentido contrário. Aqui, é comum ver indivíduos com alta performance receberem remunerações maiores que a de seus superiores. Acreditamos que esta é uma forma justa de beneficiar aqueles que mais agregam ao banco e também um modo de incentivar o bom trabalho.

São muitas as métricas de avaliação de resultados no BTG. Há uma análise de desempenho feita ao fim de cada ano, quando, durante três meses, todos os funcionários do banco passam por um completo ciclo de avaliações. A análise, primeiramente, consta do chamado feedback livre, em que todos podem avaliar seus pares, indivíduos com cargos superiores e inferiores na instituição. Isso é muito importante, pois nos permite saber como é a relação entre as pessoas aqui no banco, sem restrições. Aqui impera o coleguismo e o trabalho em equipe e aqueles que buscam crescer sozinhos não são bem vistos. Estou no banco a mais de 20 anos e meu maior orgulho é a contribuição que tive na formação e desenvolvimento de muitos de meus colegas. A depender da área do funcionário, o componente de resultado financeiro também tem certo peso na avaliação, como na área de trading, mas a adequação do indivíduo à cultura do banco é sempre fundamental.

Ao final do ciclo de avaliações, os funcionários recebem as suas classificações. Aqueles que são excelentes, cerca de 3% do total em média, têm maior benefício financeiro, grande exposição no banco e participam de cursos e workshops. Eu me orgulho de ter tido 4 “excelentes” em minha carreira, antes de me tornar sócio.

A avaliação dos sócios, como no meu caso, é feita separadamente pelo comitê executivo, um grupo de controle do banco, e não recebe as classificações gerais. Os sócios que obtiverem melhor performance são agraciados com a possibilidade de comprar mais ações do banco, enquanto aqueles com resultados menos favoráveis devem vender parte de suas ações. Dessa forma, garantimos controle e incentivo em todas as áreas do banco e estabelecemos uma dinâmica de renovação, pois é comum que os sócios mais jovens acabem comprando mais ações.

Uma outra característica da cultura do BTG é que nossos sócios e associados devem ter todos os seus investimentos feitos por meio do banco, conforme sua alocação de preferência. Afinal, como poderíamos vender a imagem do banco se não investíssemos nosso próprio dinheiro nele? Acredito que isso reforça ainda mais o alinhamento de interesses com os funcionários e contribui para uma postura de investimentos mais responsável.

 

Insper Jr: A preocupação com o meio ambiente é algo muito importante para o BTG. Poderia nos contar um pouco mais sobre essa área do banco?

Atualmente, eu sou responsável pela área de sustentabilidade, que surgiu a cerca de 3 anos aqui no BTG. Todos os bancos que financiam projetos ligados ao meio ambiente ou à infraestrutura, como no caso de belo monte e de plantas de fábricas, devem ter uma precaução extra. É sempre muito importante garantir que as empresas que receberão financiamento estão seguindo todas as leis socioambientais e respeitam toda regulamentação exigida, sob pena de corresponsabilidade no caso de ocorrências negativas. O BTG investe em empresas que partilham de sua preocupação com o meio ambiente, um aspecto que tende a crescer cada vez mais.

Em nossa sede, aqui na Faria Lima, participamos da administração do prédio, onde ocupamos cinco andares. Em parceria com os primeiros administradores do prédio, o transformamos em um dos edifícios mais autossustentáveis do Brasil. Aqui, há o maior valet para bicicletas de São Paulo, com vestiário, oficina, lavanderia e tudo o que um ciclista pode precisar. Temos uma grande horta subterrânea, onde há colheita duas vezes na semana, aberta a qualquer funcionário que trabalhe no prédio, e realizamos tratamento completo e reuso de água e esgoto.

No andar térreo, contamos com uma área verde, de descompressão, onde há uma casa bandeirantista do século XVII, aberta a visitação.  Esse é um trabalho a parte que eu gosto muito de divulgar, porque é importante uma gestão que se preocupa com qualidade de vida dos seus funcionários, da vida que se desenvolve em seu entorno, trabalhando pela melhor utilização dos espaços.

Insper Jr: Você trabalhou como COO do banco PAN. Quais foram seus maiores desafios ao lidar com a operação da instituição?

Uma das atividades do BTG Pactual é a compra e reestruturação de outras empresas. Uma delas foi o banco PAN, uma instituição voltada ao varejo, em especial crédito consignado, financiamento de automotivos, cartão de crédito e crédito pessoal. Quando ainda era controlado pelo Grupo Sílvio Santos, bem antes da entrada do Banco BTG Pactual em seu capital, o Banco PAN, então Banco Panamericano, sofreu com uma gestão fraudulenta e acabou sendo prejudicado. Uma parte do banco foi colocada à venda em 2011 e foi então comprada pelo BTG, sem garantias de passivos ocultos ou superveniências. Na administração do banco, eu tive o cargo de COO, e, em parceria com a Caixa Econômica Federal, reformulamos a gestão e reestruturamos o banco. Foi um processo difícil, com a demissão de mais de 1000 pessoas, mas também de grande aprendizado. Após aproximadamente 6 anos de administração correta e eficiente, colocamos o banco nos eixos, sendo que hoje em dia ele já apresenta lucro. No fim de 2014, retornei ao BTG com o sentimento de dever cumprido porque parte importante do trabalho já estava concluído.

Minha experiência no banco PAN foi muito enriquecedora, pois consegui trabalhar em uma área diferente da que estava acostumado e tive o prazer de contribuir para a reestruturação de uma grande instituição. Aliás, algo interessante aqui no BTG é essa dança das cadeiras, as pessoas são muito estimuladas a assumir diferentes cargos ao longo da carreira. Trabalhar em diversas áreas, ou até em outra instituição, como no meu caso, contribui para que as pessoas tenham um maior e mais profundo desenvolvimento o que agrega em muito ao banco.

Insper Jr: Como você acha que o BTG Pactual se diferencia em um mercado altamente competitivo? quais são as expectativas para o banco nos próximos anos?

Eu acredito que o nosso maior diferencial consiste na intensa valorização do capital humano e em nossa obsessão com a satisfação do cliente. Nós entendemos que cada cliente é único e tem necessidades e objetivos diferentes e, sempre com muita dedicação e cuidado, buscamos nos adaptar às especificidades de cada colaborador. Gosto de dizer que os serviços do BTG são taylormaid, feitos à medida.

O que também nos diferencia é o sentimento de dono, algo que nossos funcionários compartilham desde o primeiro dia. Quem entra aqui tem um leque enorme de possibilidades, com um futuro completamente aberto e inúmeros caminhos a se seguir. Acredito que o nosso sucesso é fruto de uma combinação perfeita de autonomia, respeito, ética, profissionais especializados, meritocracia e trabalho em equipe.

Quanto à perspectiva econômica, os últimos dois anos foram extremamente negativos, uma vez que passamos por uma crise político-econômica de grandes proporções, com forte tensão institucional. A partir de expectativas políticas nebulosas e juros na casa dos 2 dígitos, o empresário se via estimulado a não investir. O cenário não permitia aos investidores pensar a longo prazo e isso criou uma instabilidade muito grande no mercado, propiciando um ambiente de recessão e alto desemprego.

Atualmente, acredito que estamos em um ambiente político-econômico já em fase de recuperação. Com a resiliência de diferentes setores da economia e o descolamento entre as crises econômica e política, o cenário macroeconômico está se fortalecendo. Agora, o desemprego está diminuindo, o baixo CDI instiga empresários a investir e o consumo volta a ganhar força, fatos que contribuem para uma perspectiva econômica mais favorável. Como a atividade dos bancos tem uma forte correlação com a economia no geral, isso é muito positivo para o BTG. Apesar disso, é importante lembrar que estamos em um ano de eleições presidenciais e isso invariavelmente contribui para uma certa instabilidade, havendo alta precificação pelo mercado.

 

Insper Jr: Nesse mesmo tema, visto que muitos universitários buscam entrar no mercado financeiro, o que você recomenda para aqueles que querem se destacar neste setor?

Eu acredito que, hoje em dia, o jovem precisa entender que não é necessário ser um grande especialista tão cedo na vida. O fundamental é ter uma cultura geral rica e ampla. No mercado financeiro, é necessário estar atualizado sobre o que acontece no Brasil e no mundo, é imperativo formar uma visão crítica acerca dos acontecimentos mais relevantes.

Para se trabalhar aqui no banco, procuramos pessoas que entendem um pouco de tudo, desde economia, finanças e contabilidade a legislação e política. Em um mercado tão competitivo, o jovem deve ter uma formação plural e abrangente, o que que inclusive contribui para um melhor jogo de cintura em entrevistas de processos seletivos. Quanto maior o conhecimento sobre temas correlatos e maior a capacidade de fazer associações relevantes, mais dinâmico é o indivíduo e mais preparado ele está para o mercado financeiro.

 

Entrevista por Diego Moran, Consultor da 34ª Gestão