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Desemprego

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  • 27/03/2018 /
  • Conjuntura Econômica

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) define a PEA (População Economicamente Ativa) como o grupo de pessoas a partir de 14 anos de idade que estavam empregadas ou que procuraram emprego dentro dos 30 dias anteriores à PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar), ou seja, compreende o potencial de mão de obra com que pode contar o setor produtivo.

Seguindo o conceito de PEA, o IBGE definiu ainda que desempregado(a) é toda pessoa que, nos mesmos 30 dias anteriores à pesquisa, esteve em busca de emprego ou da realização de atividade remunerada e não o conseguiu. A taxa de desemprego ou taxa de desocupação de um período é a proporção do número de pessoas consideradas desempregadas pelo tamanho da PEA naquele mesmo período.

A PEA no Brasil tem crescido, com apenas alguns períodos de retração quase insignificantes, ultrapassando o patamar de 103 milhões de pessoas em março de 2017. Este aumento provocou a primeira redução significativa na taxa de desemprego desde 2004, entretanto, não é motivo de comemoração, devido ao fato de esse aumento ser fruto de um maior número de pessoas no mercado informal.

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Fonte: IBGE/PNAD Contínua

 

Apesar de ter tido um aumento na população economicamente ativa, no mês de março de 2017 as demissões superaram as contratações em 63.624 vagas. A redução das vagas de emprego é resultado de 1.261.332 admissões e de 1.324.956 demissões no mesmo mês. No acumulado do primeiro trimestre de 2017, o país registrou o fechamento de 64.378 postos de trabalho.

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Fonte: CAGED

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Fonte: IBGE/PNAD Contínua

No Brasil, a taxa de desemprego vinha se mantendo abaixo dos 8% até março de 2015 e, desde então, tem aumentado incessantemente. Em novembro de 2016, esta alcançou o valor de 11,9%, o maior desde agosto de 2004. É importante notar que esse comportamento segue relação com o PIB do país, que apresentou variação negativa de 3,77% em 2015, devido à variação do IPCA ter sido de 10,67% e da ineficiência de políticas microeconômicas. Além disso, em 2016 o PIB registrou queda de 3,59%.

Na região metropolitana de São Paulo (RMSP), a taxa de desemprego tem se mantido mais alta que a do país como um todo. O desemprego no país foi em média de 12% no trimestre de setembro a novembro segundo o IBGE, enquanto o desemprego na região metropolitana de São Paulo em novembro era de 17,2%. No entanto, de outubro para novembro de 2017 a taxa recuou em 0,7 pontos percentuais, reduzindo de 17,9% para 17,2.

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Fonte: Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados)

Além disso, a alta inflação reduz o poder de compra dos consumidores, fazendo com que aqueles que não estavam na PEA passem a participar da mesma. Considerando que não houve aumento da oferta de vagas no mercado de trabalho, tal cenário corrobora para um aumento da taxa de desemprego do país.

As práticas de política monetária e escolha da taxa de juros de um país dão a melhor resposta do Banco Central ao trade-off entre desemprego e inflação, já que, com os juros altos, a restrição na demanda agregada estabelece um equilíbrio com menor índice de preços e menor PIB, o que se reflete em uma onda de desemprego (o oposto é verdadeiro para juros baixo). Percebe-se então uma relação inversa entre a variação do índice de preços (inflação) e a taxa de desemprego. Numa economia aquecida – com inflação alta – a oferta de emprego tende a ser maior. Isso é tão verdade no curto prazo que, em 2012, dois anos depois do início de uma política de estímulo a atividade econômica, o desemprego atingiu patamares inéditos, atingindo valores menores que 5 pontos percentuais.

A taxa natural de juros é aquela que condiz com o desemprego natural de uma economia, quando todos aqueles que querem estar empregados ao salário vigente no mercado (salário de equilíbrio) estão. Existe esse nível ótimo de subemprego, característico de cada economia. Isso acontece porque o mercado de trabalho opera com diferenças entre número de trabalhadores e postos disponíveis de trabalho, além da liberdade de escolha do indivíduo entre trabalhar ou não, sendo que o mesmo escolherá a alternativa que lhe render maior nível de utilidade. Esse nível ótimo de cada país depende, por exemplo, dos benefícios dados aos desempregados, como o seguro desemprego.

Quando há um cenário inflacionário e o desemprego cai abaixo de seu nível natural, o desequilíbrio resultante irá alterar salários para que mais indivíduos decidam que vale a pena trabalhar, gerando maior custo para as empresas. Isso dá início a um ciclo inflacionário pois as empresas repassam o custo em seu preço. Esse cenário aconteceu no pós-boom econômico de 2010-2012, com a inflação passando os 10 pontos percentuais em 2015.

Além da inflação, outros dois indicadores importantes para entendermos melhor a relação da taxa de desemprego com a economia são os índices de medo do desemprego e de satisfação com a vida. Quanto mais alto o índice de medo do desemprego, pior é a situação para o país, e o inverso é verdade para o índice de satisfação com a vida. Pode-se notar que o índice de medo do desemprego aumentou vertiginosamente em 2015 e, desde então, tem se mantido elevado, apesar de ter sofrido algumas quedas. No entanto, em dezembro de 2017, esse índice atingiu 65,7 pontos, retração de 2 pontos em relação a setembro. Em comparação com dezembro de 2016, houve um aumento de 0,9 ponto, o que indica uma pequena piora das expectativas dos trabalhadores quanto à estabilidade do mercado de trabalho em relação ao mesmo período do ano passado. Já o índice de satisfação com a vida teve uma queda brusca de 2014 para 2015, principalmente pelo agravamento da crise política, que acarretou um aumento da inadimplência, e tem mantido valores abaixo da média histórica desde então. Esse índice também obteve resultados de baixa quando comparado dezembro de 2017 com o mesmo período do ano anterior, registrando uma queda de 1,2 pontos. O índice em dezembro de 2017 era de 65,6 pontos, ainda abaixo da média histórica de 69,9 pontos. Ainda, o aumento da taxa de juros, que vinha ocorrendo desde 2014, diminuiu os gastos das famílias, esfriando a economia. O esfriamento da economia, aliado a escândalos de corrupção envolvendo políticos, se refletiu na redução dos índices de confiança do consumidor e da indústria, que também podem explicar o período de queda de ambos os índices acima.

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Fonte: Portal da Indústria

 

Após a queda brusca nos anos de 2014 e 2015, vemos uma pequena melhora no índice de satisfação com a vida e uma estabilidade no índice de medo do desemprego. Pode-se relacionar este momento ao impeachment da até então presidente Dilma Rousseff, que inclusive trouxe projeções de melhora da economia brasileira. Ainda sobre o segundo índice, este apresentou uma pequena variação positiva no segundo semestre de 2016, mas ainda apresenta valores pouco satisfatórios. Vale ressaltar que mesmo em 2017 o índice permaneceu em um patamar muito superior à sua média histórica de 48,6 pontos.

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Fonte: Portal da Indústria

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Fonte: Portal da Indústria

Mesmo com estes dados já preocupantes, existe a subutilização da força de trabalho, que é um conceito construído para complementar o monitoramento de mercado de trabalho e da medida de desemprego, e tem como objetivo fornecer a melhor estimativa possível da demanda por trabalho. Nessa metodologia são identificados três componentes mutuamente exclusivos, sendo que dois componentes integram a força de trabalho (pessoas ocupadas e as desocupadas na semana de referência): i) os subocupados por insuficiência de horas trabalhadas os ii) desocupados; a eles se somam os que integram a iii) força de trabalho potencial. Assim, essa taxa é uma razão entre seus três componentes e a força de trabalho ampliada (força de trabalho somada à força de trabalho potencial). De acordo com esta métrica, verifica-se que o Brasil no terceiro trimestre de 2017 atingiu 23,9% da força de trabalho ampliada, equivalente a 26,8 milhões de trabalhadores subutilizados.  Vale ressaltar que, esse resultado foi maior ao se comparar com o terceiro trimestre de 2016, quando o indicador de subutilização de mão de obra foi de 21,2%. Na comparação com o terceiro trimestre de 2015 com o de 2016 também, uma vez que nesse período o índice foi de 18% no país.

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Sendo assim, de acordo com um estudo realizado pelo Banco Credit Suisse, o Brasil está ranqueado na sexta posição entre os países globais do chamado desemprego ampliado, que inclui 32 países desenvolvidos e emergentes. Essa pesquisa leva em consideração o índice de subutilização de mão de obra, que considera pessoas que desistiram de procurar trabalhos ou vivem de “bicos” por falta de opção.

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Como comparativo, podemos tomar a República Checa, cuja taxa de desemprego oficial foi de 5,3% no terceiro trimestre 2016, enquanto a taxa de desemprego ampliada foi de 5,7% no mesmo período. O país foi o melhor colocado no ranking feito pelo Credit Suisse.

O gap entre as taxas de desemprego ampliado e do desemprego oficial é de 9,3 p.p., no Brasil, enquanto que o da República Checa é de apenas 0,4 p.p. Isso pode se dar pela grande quantidade de trabalhadores informais no Brasil, que acabam por ser considerados como empregados pela pesquisa tradicional do IBGE.

Como já mencionado anteriormente, a taxa de desemprego ficou em 12,0%, em média, no trimestre de setembro a novembro de 2017, somando 12,6 milhões de desempregados, o que continua sendo um número muito alto. Trata-se de uma retração de 0,2 p.p. em relação ao trimestre anterior terminado em outubro de 2017. Entretanto, ainda é maior quando comparado com o mesmo trimestre do ano anterior, que ficou registrado em 11,9%. Apesar da tendência de queda da taxa, esse recuo não representa uma realidade que deve ser comemorada, devido à manutenção do número de trabalhadores com carteira assinada na comparação com os três primeiros meses desse ano. O que sofreu um aumento, segundo o IBGE, foi o número de pessoas no mercado informal. A população ocupada, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), que era de 90,2 milhões no 2º trimestre de 2017, cresceu 1,4% (mais 1,3 milhão de pessoas) em relação ao trimestre de janeiro a março de 2017. Além disso, o número de empregados com carteira de trabalho assinada foi de 33,3 milhões, mantendo-se estável frente ao trimestre anterior e recuando 3,2% em relação ao trimestre terminado em junho de 2016.

O cenário brasileiro é desfavorável: a crise política deve adiar a aprovação das reformas, em especial a da Previdência, o que vai tornar mais difícil o ajuste fiscal, impactando a confiança dos agentes econômicos, a retomada da economia, os preços dos ativos e as aplicações financeiras. “Um cenário de estresse financeiro intenso parece estar, por ora, afastado, mas a estabilidade financeira é condição necessária, mas não suficiente, para a recuperação consistente da atividade econômica, e o custo da incerteza é a estagnação”, diz o relatório do Itaú. Devido a essa estagnação, espera-se que a taxa de desocupação demore mais para cair e se acentuar. Sendo assim, o Banco Itaú projetou que sua taxa chegue a 14% no final de 2017 (antes, a projeção era de 13,8%) e 14,3% no fim de 2018, ante 13,6%. E seu pico deve ser atingido no mês de setembro de 2018, com 14,3%.

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Fonte: Itaú/PNAD Contínua

De acordo com uma pesquisa feita pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), de cada três novas pessoas desempregadas no mundo em 2017, uma será brasileira. Segundo esse estudo, estima-se que o Brasil passará de um total de 12,4 milhões de desempregados para 13,6 milhões nesse ano, 1,2 milhões a mais ao comparar com 2016. Assim, a expectativa é de que somará 13,8 milhões de desempregados no ano de 2018. Observa-se, então, que o país terá, em termos absolutos, a terceira maior população de desempregados entre as maiores economias do mundo, sendo superado apenas pela China e Índia. A OIT projetou a taxa de desocupação no país sendo de 12,4% em 2017, um ponto acima do percentual de 2016. Para 2018, esse índice também tem previsão de 12,4%.

O Banco Santander, por outro lado, apresentou valores diferentes, prevendo que a taxa de desemprego fecharia o ano de 2017 com 13,1%, mas há otimismo quanto ao ano seguinte. Para 2018, a projeção é de uma taxa de desemprego a 12,7% em junho e ainda melhor ao observar a projeção de dezembro de 2018, sendo essa de 11,5%.

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Fonte: Santander/PNAD Contínua

 

Olhando por qualquer ângulo, as previsões não são favoráveis para 2018. A taxa de desemprego começa a reduzir, mesmo que em ritmo lento, o que pode ter efeito no PIB à medida que a indústria operar com cada vez menos capacidade ociosa.

 

Postado em 26/03/2018