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As Fintechs e a Revolução do Mercado de Cartões de Crédito

O cartão de crédito pode ser visto como uma forma de financiamento de curto prazo pré-aprovado pelo banco.

As Fintechs e a Revolução do Mercado de Cartões de Crédito
  • 02/03/2017 /
  • Geral

Quando um indivíduo abre uma conta em um banco, seu perfil e renda passam por uma avaliação, avaliação esta que é responsável pela definição do limite do cartão de crédito deste indivíduo. Portanto, o indivíduo pode fazer uso do limite de crédito que lhe é fornecido pelo banco.

Ao final de 2016, a média das taxas de juros cobradas pelos diferentes bancos era de 478,43% ao ano, sendo este o maior valor desde 1995. Essa taxa de juros significa que se uma fatura não é paga integralmente, seu valor residual está sujeito à taxa pré-estabelecida pelo banco. Este tipo de operação é chamada de crédito rotativo.

Se analisadas as taxas de juros cobradas pelos grandes bancos no Brasil, vemos que o valor destas é ainda maior que o da média nacional em 2016, a exemplo do Bradesco (cobrando 558,20% ao ano) e a Caixa Econômica Federal (cobrando 568,23% ao ano). Essas elevadas taxas de juros por vezes desencorajam os consumidores a fazer uso de seus cartões de crédito, por medo de não conseguirem arcar com os custos da fatura.

Com este cenário de taxas muito elevadas, surge uma fintech com taxas de juros muito mais baixas e, ainda, sem cobrar uma anuidade sobre seu cartão: a Nubank. A proposta da empresa é diferente ao passo que não tem nenhuma agência, quase tudo é feito através de um aplicativo e a empresa é reconhecida como um case de sucesso no seu atendimento ao cliente, cliente este que é cuidado parte online e parte offline.

Por ter custos baixos com sua operação – quando comparados aos custos dos grandes bancos – a Nubank conseguiu oferecer taxas muito mais baixas que as da concorrência. As taxas para seu crédito rotativo variam de acordo com o perfil do cliente, sendo que a taxa média, de acordo com a co-fundadora e diretora Cristina Junqueira, é de 125,22% ao ano.

A possibilidade de um cartão de crédito com baixos custos atraiu muitas pessoas, sendo que, de acordo com a Exame, a fila de espera para um cartão da Nubank passava de 414.000 pessoas em agosto de 2016. Há, claramente, uma demanda por esse tipo de serviço, o que atraiu novos entrantes neste mercado. Como exemplos, pode-se citar o Digio, produto do banco CBSS (criado pelo Bradesco em conjunto do Banco do Brasil), com taxa de juros de 149,03% ao ano e o Banco Neon, que não possui cartões de crédito, apenas débito, então não possui crédito rotativo.

Ainda, em se tratando de fintechs, de abril do ano passado a janeiro deste ano o número de empresas foi de 130 para 244, de acordo com pesquisa realizada pelo Valor Econômico. Este aumento de aproximadamente 87% em apenas um ano mostra uma tendência no mercado: as pessoas desejam serviços financeiros mais práticos e baratos. Apesar de as próprias fintechs dizerem que não acreditam ser ameaça para os grandes bancos, elas podem mudar os hábitos de uma porcentagem, mesmo que pequena, da população.

No entanto, uma possível reforma no mercado de crédito ameaçou a existência de algumas fintechs, incluindo a Nubank. Se aprovada, a reforma obrigaria as empresas de cartão de crédito a fazerem os repasses devidos aos lojistas em até dois dias, ao passo que hoje esse processo pode levar até trinta dias. Hoje, a prática comum é que os bancos recebam o pagamento do cliente antes de repassar esse dinheiro para os lojistas.

Para as fintechs, essa reforma seria altamente prejudicial, ao passo que elas não possuem caixas bilionários, como os dos grandes bancos, para arcar com os custos de ter que pagar os lojistas antes de receber o dinheiro dos clientes, além disso poderiam ter que aumentar suas taxas de juros para lidar com este novo cenário. A reestruturação do crédito ainda está sendo discutida pelo Banco Central, e é esperado que ela ocorra, mas não de forma abrupta, dando algum tempo para que as fintechs se preparem da melhor maneira possível.

Se superarem este problema, estas empresas certamente conquistarão uma maior fatia do mercado financeiro, mas que ainda representa market share muito limitado. A Nubank, por exemplo, diz que a grande maioria de seus clientes tem até 35 anos de idade, ou seja, a tendência é que seu número de usuários cresça com o passar do tempo, visto que os jovens e adolescentes de hoje crescerão e abrirão contas em bancos. Mas, indo além dos serviços financeiros, é necessário que se faça uma análise de como essa oferta de crédito a taxas mais baixas pode afetar o consumo do brasileiro, tanto em volume quanto em forma de pagamento (e, possivelmente, inadimplência).

Projeções de melhora do cenário econômico já para o final de 2017, o movimento de redução da taxa de juros básica, além de prospecções positivas com relação à taxa de desemprego são fatores que possivelmente aumentariam o consumo das pessoas. Quando analisados em conjunto à oferta de crédito a menores taxas de juros e à quase inexistência de custos com tarifas, pode-se esperar um aumento do uso de cartões de crédito como meio de pagamento. Esse aumento no uso do crédito é importante ao passo que pode ser visto como um propulsor para a atividade econômica.

No acumulado de 2015, a proporção do crédito para o PIB chegou a 67,90%, enquanto o que é visto nos Estados Unidos é uma proporção de 188,80% no mesmo período (é importante ressaltar que o cartão de crédito não é a única forma de crédito avaliada nessa proporção). Em 2016, no entanto, esta proporção caiu no Brasil, chegando a 51,06%. Para fins de comparação, nos Estados Unidos a taxa de juros média para o crédito rotativo era de 9% ao ano em 2016, de acordo com o Globo News, o que é um fator relevante para o uso do cartão de crédito.

Além da redução da taxa de juros, um aumento no número de clientes de fintechs possibilitaria a estas realizar maiores investimentos em inovações. Como estas são voltadas para a máxima eficiência e performance, é esperado que a grande revolução do controle das finanças pessoais, que até agora impactou principalmente as classes A e B, atinja também classes com faixas salariais mais baixas. Isso se daria, principalmente, pelo fato de estas terem uma necessidade maior de gerenciar o timing dos seus gastos, mantendo seu saldo positivo nos bancos e um perfil de crédito de menor risco.

Levados em consideração todos os fatores acima, as finetchs são inovadoras ao passo que conseguem oferecer serviços iguais aos dos grandes bancos, com maior qualidade percebida pelos clientes e custos mais baixos, como é o exemplo da Nubank. Por serem tão inovadoras e proporcionarem uma melhor relação custo e benefício aos clientes, as fintechs têm potencial para revolucionar todo o mercado de cartões de crédito.

Por: Ricardo Busch, consultor da 32ª gestão Insper Jr Consulting